Poetrix




Filhos

Trilhos que partem de nós
Nós que nos unem
Partes que nos parem

Mulher - ensaio premiado



por Marilda Confortin



Quando o padre falou: “Eu vos declaro marido e mulher”, levei um susto.  Mas o quê é que ele pensava que eu fosse até aquele momento, então?  Homem? Assexuada? Indefinida? Animal?
Justo um padre, que não sabe nada sobre a mulher, vai me declarar “mulher”? Quase interrompi meu casamento e me atraquei no tapa com ele.

Isso me lembrou algumas datas comemorativas. Inventaram datas para tudo. Tudo o que deveria ser comemorado durante todos os dias, foi resumido num único dia. Tudo o que leva anos para se resolver, resolveram resolver num dia só. Fácil acabar com os problemas assim. Desse jeito, até eu faço.

Duas dessas datas, deixam-me particularmente incomodada.

Dia da mulher, por exemplo. Já começa por aí. Tem o dia do homem? Não que eu saiba. Recebi cartões, poesias e dezenas de e_mails inteiros falando um monte de coisas sobre minha beleza, força, compreensão, inteligência, sensibilidade.
Olhei cuidadosamente o destinatário para ver se não havia engano. Era para mim, mesmo. Me peguei rindo, imaginando que, se meus amigos homens dissessem aquelas coisas todos os dias e não só do dia da mulher, correriam o risco de se convencerem de que sou mesmo tudo aquilo que disseram. E aí teriam de admitir que não sou tão burra, tão feia, tão fraca, e até tenho uma certa sensibilidade. E teriam que aceitar o fato de eu ser igual a eles. E aí eu poderia querer ter os mesmos direitos. Já pensou?


É bem cômodo ter o dia da mulher. Se alguma vez esquecermos deste pequeno detalhe amigas, não precisamos nos preocupar. Sempre haverá um bom homem, do tipo que mente pouco (uma vez por ano. Só no dia da mulher) que vai nos lembrar do quão emocionante e lindo é ser do sexo frágil. De quanto ele nos admira pela força e inteligência por ter conseguido a genialidade de acumular às nossas funções, as dele também. Por fazer tudo o que faziam nossas avós, e ainda trabalhar fora o dia inteiro, disputando muitas vezes com o próprio marido ou filho, um mercado de trabalho cada dia mais escasso e desumano. E por estar sempre linda, jovem e bem humorada para nosso amado marido e filhos. Tudo em nome da tal liberação feminina.  E por fingir que acreditamos nessa liberdade.

Começo a acreditar que aqueles neurônios a menos, nos fazem falta. Como fomos cair nessa armadilha? E porque continuamos alimentando essa farsa? Merecemos ser consideradas uma minoria problemática e ter o dia Internacional da Mulher! 

Nessa mesma linha, tem o Dia das Mães.  Tudo bem, o dia dos pais também é um saco. Mas vejam a diferença nos cartões, presentes e mensagens.  Os cartões para o dia dos pais são decorados com cores e figuras sóbrias (lupas, furadeiras, livros,  mesas de escritório). Coisas concretas que lembram trabalho, austeridade, responsabilidade. Os cartões do dia das mães são imagens de santas,  flores, anjos, fadas. Como se fossemos etéreas, entidades abstratas, borboletas sem crisálidas.

Os presentes então, são de uma criatividade! Está na hora dos professores se perguntarem: “Quando uma criança lembra da mãe, o ele lhe vem à mente?”.  Um avental todo sujo de ovo?  Pano de prato? Grampo de prender roupa no varal?  Aparador de panela? Colher de pau? Saboneteira? Porta retrato?

Esses são os objetos que os professores de arte ensinam para crianças e as fazem presentear no dia das mães. Parece que somos só um compartimento da casa que precisa de um enfeite, de uma inutilidade. Não esqueçam senhores, que a maioria dos conceitos é formada lá, na escola. E que a maioria dos professores são mulheres.

E tem aqueles maridos que esquecem do dia do aniversário de sua esposa, mas lembram do dia das mães... E aproveitam para dar de presente a elas (às esposas), no dia errado, aqueles eletrodomésticos que já deveriam ter comprado há muito tempo. E ainda perguntam: “Gostou, mãezinha?” Quer que ela responda o quê? Maridos, maridos... Vocês estão confundindo as bolas. Dêem e digam isso para suas mães! Aquela que vocês chamam de avó, agora.

As mensagens então...  São verdadeiras orações à Virgem Maria. Não sei qual a conseqüência psicológica do que vou dizer agora, mas preciso contar um segredo: Nós, mães, não somos mais virgens. Deixamos de ser virgens muito antes de vocês nascerem, filhos. E de santas não temos nada.  Vocês não imaginam quantas vezes pecamos para conceber vocês. E com que prazer! E essa mania de enaltecer nossa aceitação em relação a dores e desgraças? Ai caramba! Nenhuma mãe gosta de sofrer, não. Parem com essa história de “ser mãe é padecer no paraíso”. Nós não somos masoquistas! E chega de dizer que somos entidades dotadas de infindável paciência, abnegação, bondade, capacidade de perdoar.  Tem paciência!  Isso é o que vocês querem que a gente seja. Que a gente diga amém pra tudo e perdoe todas as cagadas que vocês fazem.

Olha, enquanto vocês são pequeninos, ainda vá lá. A gente sabe que quem escreve essas besteiras não são vocês, crianças. Mas, convenhamos: Marmanjos, maridos, diretores e presidentes de empresa mandando essas mensagens para as mulheres? Parem!

 “Você diz isso por que não conhece minha mãe. Ela tem quase oitenta anos e é uma santa”, disse-me um amigo. Cresça, respondi-lhe. Coitada da sua mãe! Imagine a culpa que ela sente por ter criado você assim tão bobinho. Ela não vai morrer nunca, com medo de que você não sobreviva sem ela. Pare de se enganar dizendo que foi morar com ela, depois do divórcio porque ela precisava de você. É você que precisa de mãe e transforma toda a mulher em mãe. Por isso seus casamentos não duram. Cai na real!

Um dos maiores pecados que as mães cometem, é deixar que os filhos cresçam acreditando nessa baboseira toda. Elas se arrependem muito depois, podem ter certeza. É por isso que as mães rezam tanto. Não é porque são santas, não. É para pedir perdão pelos erros que cometeram na criação dos filhos e pela falta de coragem de dizer umas verdades. 

Não viverei para ver, mas acreditarei que evoluímos, quando todas essas datas forem extintas do calendário. Quando no dia a dia sem aviso prévio, respeitarmos as crianças, os velhos, os índios, os negros, os brancos, os pais, as mães, as mulheres, os homens, a natureza, a humanidade, a paz...


Autora: Marilda Confortin
Ensaio classificado em primeiro lugar no Concurso Internacional aBrace, sob o tema Mariposas – Mujeres sin capullo. Publicado no livro com o mesmo nome, Biachi e Pilar Editores, Uruguai, 2002. Impresso também em papel jornal e distribuído gratuitamente no estado do Paraná, dentro do programa Bibliomovel.

Ab-sinto-me

depois do terceiro copo, você vê as coisas
como elas realmente são: Terríveis
Oscar Wilde


Ab-sinto-me


Como se tivesse bebido um litro inteiro de absinto.

Estou sob os defeitos da terceira idade.

Uma calamidade.


Eu devia ter parado na primeira dose, aos doze,

quando o mundo era como eu queria que fosse.

Ou lá na curva da juventude,

onde, segundo Wilde, no segundo copo

a gente vê as coisas como elas não são.


Meu erro foi acreditar nele.

Ele parou de beber com pouca idade

vendo as coisas como são no terceiro copo:

só um porre.


Se ele passasse do quarto copo,

saberia que, na verdade, as coisas são bem piores.


Não vou me matar, não, amigas.

Não sou suicida.

Sou curiosa, teimosa e compulsiva.


Vou beber dessa vida até a última gota

porque acredito que ela tenha uma relação íntima

com o efeito do absinto.


E pressinto que, no quinto copo,

as coisas estarão como me sinto

dentro do corpo depois de cinco décadas:

decadente, indecente.
Mas, no fim do litro,

findo o líquido,

estarei em equilíbrio.

Livre e leve como pluma.


E o copo e o corpo

não terão importância alguma.

Vários



Torresmo?

Tô nessa!
(a)quilo que engorda,
como pelas bordas.


Dá ou desce!


Ele é diabético.
Não adianta
fazer cú doce.

Ali na mesa
bife à milanesa,
salada tailandesa,
lasanha à bolonhesa
arroz à grega,
e eu de regime,
saindo à francesa.
A coisa tá russa!


Etiqueta
Quando eu crescer,
quero ser como você.
Quando eu crescer,
quero ver se como você
do jeito que você me ensinou
a comer.
Quando eu crescer,
quero ver se como,
como você come:
Sem mostrar fome,
pelas bordas,
comida que não engorda.
Quero aprender
a comer com elegância:
sem talheres,
sem aliança,
sobre a mesa,
sem remorso,
nem despesa.
Quando eu crescer,
não quero fazer dieta.
Quero comer quieta,
devagarinho,
saboreando cada pedacinho.
Quando eu crescer
quero ver se,
assim como você,
eu como,
só pelo prazer de comer

Poetrix


Baunilha

Do espanhol: vainilla.Da orquídea: pequena vagem; vaginha.
Toda essa viagem e ainda não achou o ponto G?

madurez



o apuro do vinho
se dá sozinho
em escuros
repousos
reclusos
recu(s)as



Você foi meu



Você foi meu

Porto inseguro

Potro indomável

Porte ilegal

Meu

Preto futuro

Parto impossível

Prazo final.

Poetrix






Curitiba céu cinzento.
Não agüento dias assim.
Quero Domingos pintados de azul-Marins.

(lendo os livros O Tempero do Tempo, de Domingos Pelegrini
e Fazendo o Dia, de José Marins)



A noite sendo

uma noite ca(olha)
um sapo coaxa
e a poesia “se acha” 

(ouvindo chove chuva, de Jorge Ben. Tá bom:Jor)


Quanto mais te menosprezo
menos preso
te aprecio

(ouvindo J.B. Vidal recitar seu poema "Coma")

dia da mulher

8 de março


Boa ou má,
bela ou fera,
fértil ou estéril,
jovem ou anciã:
mulher,
é
mulher
todos os dias
e não fêmea efêmera
de um (c)oito de março qualquer

Dois poetrix

Algo errado...

Ele me quer a seu lado.
Mas não quer me ter
em cima nem baixo.


Azedume

Não me fale de amor!
Estou de mau humor
e odeio rima pobre.

Poetrix




Bagagem literária?

Bobagem!
Nessa viagem
leve um coração leve
e sobretudo um olhar de veludo
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