Livros eletrônicos

Texto escrito em 2007
Nos últimos dias, andei assistindo palestras e debates sobre “Literatura e as novas mídias”. Os escritores que ouvi, Miguel Sanches Neto, Ricardo Corona, Luci Colin, José Castelo, Daniel Pelizari e João Paulo Cuenca, se dividem entre resistentes, desconfiados e entusiastas das novas mídias.
Eu que tenho um pé na tecnologia e outro na literatura, não me preocupo muito com o tipo da mídia, desde que a palavra continue cantada e decantada em verso e prosa para todo o sempre, amém. Estou adorando essa era multimídia.
Os radicais, afirmam que o livro de papel nunca vai acabar. Engraçado... tenho a leve impressão de ter conhecido alguém assim, quando escrevíamos nas paredes das cavernas. E acho que já li uma afirmação parecida com essa num rolo de papiro na biblioteca de Alexandria. Será que esses escritores ainda usam máquina de escrever para datilografar seus livros? Nada contra. Tem gente que gosta de sofrer.
Os desconfiados, dizem que na internet só tem porcaria e que só usam como fonte de pesquisa. Estranho...usam a internet para pesquisar porcaria? Lêem o que os outros escrevem, mas não permitem que ninguém pesquise seus textos? É, tem gente que acha que o papel garante a qualidade do conteúdo.
Um deles, disse que tem uma relação de fetiche com o livro de papel e por isso não acredita na evolução do livro eletrônico. Eu também pensava assim até que um dia fiz um pequeno teste: Coloquei sobre a mesa o livro “O senhor dos anéis” em papel e a lado dele, um desses aparelhinhos para leitura de livros eletrônicos com o mesmo livro carregado. Pedi para meus filhos escolherem. Deu a maior briga. Ambos queriam o ebook. Lembrei das inúmeras pessoas que procuram as bibliotecas públicas ou empresas que reciclam papel para doar bibliotecas inteiras de seus recém falecidos pais... ai meus queridos livros... nosso fim está próximo.
O livro impresso em papel tem menos de 500 anos. Não vai demorar mais que 30 pra mudar de recipiente outra vez. O mercado editorial está se mexendo, assim como aconteceu com o mercado da música, dos vídeos, da telefonia. E quem não se mexer, está com dias contados. As editoras e distribuidoras que não se espertarem vão falir, mas, os escritores e leitores sairão ganhando porque a tendência é que o acesso aos livros eletrônicos e bibliotecas digitais seja completamente patrocinado por grandes instituições, como já está acontecendo com blogs e sites culturais.
Empresas como Yahoo, Microsoft, Google, eBoockCult, Sony, Amazon, Panasonic entre outras, estão investindo pesado no mercado de livros eletrônicos. Além dos bons e não tão velhos PCs e Notebooks, vários dispositivos específicos para leitura de livros eletrônicos estão sendo desenvolvidos e aperfeiçoados. Alguns modelos já estão a venda com apelos significativos como por exemplo: Compre nosso eBook reader e ganhe 100 livros clássicos de graça; Compre um livro e ganhe U$ 50 para gastar com outros livros; Compre nosso eBook e nós lhe damos serviço gratuito de banda larga sem fio e daí pra fora.
Para quem ainda não leu nada sobre esse assunto, vou mostrar algumas imagens e características desses ainda misteriosos e recém-nascidos dispositivos para leitura de livros eletrônicos.
Os eBook Readers pesam em média 250 gramas, medem aproximadamente 17 cm de altura e 15 cm de largura (tamanho de um livro normal), são revestidos por uma capa que imita a capa dura de um livro clássico, a tela é de mais ou menos seis polegadas, feita com uma tecnologia que não cansa nem agride os olhos e só consome energia quando você vira a página. Não precisa desligar o equipamento. É só fechar e largar na cabeceira da cama ou dentro da bolsa como se faz com qualquer livro de papel. Em uso, a bateria dura em média 6 horas. Por enquanto, comportam apenas 50 a 500 livros e possuem vários botõezinhos que fazem coisas interessantes, mas os mais utilizados são mesmo os de virar as páginas, o do índice de livros e o de aumentar o tamanho da letra (para quem já tem vista curta como eu, é ótimo).


Para aqueles que gostam de dialogar com o livro de papel interrogando-o, torturando-o com riscos e anotações, os eBooks mais modernos possuem uma canetinha mágica que faz tudo isso sem danificar a página e ainda cria marcadores para retornar às anotações e links para aprofundar a leitura.


Para quem viaja muito e fica preso em aeroportos, avião ou ônibus é uma beleza.

Imagine tirar férias e ir para a ilha do mel levando todos os seus livros preferidos? Ou ter que morar numa kitinete ou num quarto de hotel. Não seria bom ter uma imensa biblioteca na cabeceira da cama?
E como é que se carrega esse tal de eBook Reader? Com um cabo USB, igual ao que você usa para copiar arquivos para o pendrive ou descarregar a câmera fotográfica. E onde se compra o aparelho e os livros? Por enquanto, cada fabricante tem seu próprio modelo e sua própria editora. Você entra no site, compra o aparelho e os títulos, paga com cartão e baixa o livro como se fosse uma música, uma imagem ou um novo toque de celular. E o acervo? A Sony tem cerca de 20 mil títulos para venda e oferece mais de 100 gratuitamente. A Kindle anunciou que tem 90 mil títulos. O projeto Gutenberg oferece 20 mil livros eletrônicos de domínio público gratuitamente. Você também pode carregar seus próprios textos ou assinar os principais jornais e revistas. No Japão, já tem até um sebo virtual. E dá para emprestar livros também. Ele se auto apaga quando termina o prazo do empréstimo. E se cair, quebrar, molhar, estraga? Estraga. O livro de papel também estraga se molhar. O celular, a televisão, o notebook também. Mas o conteúdo do livro que você comprou, continua lá, no provedor para você fazer um novo donwload.
É claro que ainda tem muito pouco acervo traduzido para o português, que os dispositivos de leitura custam de 350 a 500 dólares, que os títulos custam de um a quinze dólares, que a indústria do papel vai resistir bravamente e que os escritores estão morrendo de medo do plágio e da pirataria. Mas, a revolução do livro eletrônico está só engatinhando. Tem menos de 10 anos de existência. Antes da metade desse século essa tecnologia estará mais segura, confortável e acessível até para nós, brasileiros. Tem quem aposte que o papel eletrônico ainda vai salvar a floresta Amazônica.
Cansado de ler esse artigo? Que tal pegar seu eBook e se distrair com um jogo ou um filme? Ou rever as fotos da família? Ou colocá-lo embaixo do travesseiro e dormir ouvindo uma música bem relaxante?
Se a evolução dos livros de papel para eBooks é uma coisa boa ou ruim, eu ainda não sei. O que sei é que quem gosta mesmo de ler, vai continuar lendo e escrevendo em qualquer dispositivo, em qualquer lugar, em qualquer tempo.
texto escrito em 2007

LUA CAOLHA - POETRIX

Alguns poetrix do meu livro Lua Caolha
Alguns poetrix do meu livro "Lua caolha"

Semana Paranaense de Poesia

participe, divulgue, apóie


PÉROLAS

Doa-se

coração adestrado
com pedigree, vacinado
só não obedece ao dono
(Lilian Maial)

L-i-m-í-t-r-o-f-e

um que em mim
muito mal localizado
entre o fundo do poço e o olho do tornado
(Aila Magalhães)

Bumerangue

eu voto
tu votas
eles voltam
(Angela Bretas)

Cordeiro da deusa

sob o cutelo
ofereço meu corpo aos teus desejos
- tira o pecado do mundo!
(Goulart Gomes)

Mar e amor - poesia




video

Rodrigo y Gabriela

Tive o privilégio de assistir Rodrigo y Gabriela. Dois jovens mexicanos que arrancam sons impossíveis do violão. Se um dia aparecerem por aqui, não percam.




e enquanto você ouve o Rodrigo e a Gabriela, pode reler meu poema Demian, em espanhol, que é pra combinar com o clima


Demian

Si Demian llegase
a las 3 de la mañana
mordiese mis mejillas
o mis pantorrillas
me llevase al infierno
o al cielo de su boca
me llamase de loca perdida
o de vaca profana
me tirase a la cama
y me amase con blandura
en un celo de silencio
como si fuese plantar
la semilla de un Cristo
en mi vientre ...
Si Demian llegase
a las 3 de la mañana
obsceno y mezquino
invadiese mi sueño, mi nido,
robase mi sueño
y dejase en mi cuerpo su hijo...
Si Demian entrase,
me dejase en transe
fornicase conmigo
mismo que ya no fuese
las 3 de la mañana
mismo que ya no fuese
por la mañana,
mismo que ya no fuese
un Demian de Herman Hesse
desde que llegase y nunca más se fuese
Ese...¡ese desgraciado que no llega!

Poetrix


Postar nosso lixo eletrônico na internet
pode salvar árvores.
Mas, quem nos salvará do lixo eletrônico?

COMÉ QUE FICA MEU PREJUÍZO?


(Da série: “histórias secretas de amigos e inimigos” – por Marilda Confortin, com a co-autoria e cumplicidade dos personagens principais)


Encostados no balcão da lanchonete da rodoferroviária de Curitiba, os dois amigos tomavam café da manhã. Trabalhavam na redondeza e se divertiam ouvindo trechos de conversas de pessoas desconhecidas que passavam pela estação. Quando o ônibus partia, se alguma mulher olhasse pela janela, os dois acenavam, jogavam beijos para a estranha e não raramente faziam gestos obscenos ou gritavam frases como: “- Não me abandone, meu amor! Volte para nossos filhos! Por favor não se vá” ou ´pior “ Vai... vai embora sua piranha! Cadela sem vergonha! Vai viver com seu amante, vagabunda!”.

A infeliz fechava a janela constrangida enquanto os outros passageiros abriam a janela para ver e ouvir o que eles gritavam.  

Outra diversão dos dois amigos era inventar diálogos a partir de uma frase que ouviam nas despedidas, colocando-a num contexto que não tinha nada a ver com a conversa.
 
Naquele dia, por exemplo, uma senhora cuja saia farta e florida entrava incomodamente nas nádegas também fartas, embarcou no ônibus da Reunidas e despediu-se de um homem mais jovem, dizendo “... e faça o que eu mandei!”. Um deles pegou daí e emendou: “Pode deixar, sua velha desgraçada. Vou encher sua filha de porrada”. E o outro complementou: “Ai benzinho, bate mais, assim, isso, mais, mais, gosotosão!”  

O viajante encostado no balcão da lanchonete, esperando um misto frio e um pingado, olhou para os dois marmanjos e balançou a cabeça, inconformado com aquela brincadeira de mau gosto.  

O lanche do viajante chegou. O sujeito deu uma mordida, mastigou, fez uma expressão de quem está experimentando um sabor inesperado e olhou intrigado para o sanduíche.  Tomou um gole do pingado, deu uma abocanhada maior, mastigou, mastigou, franziu a testa, mordeu de novo, engoliu e olhou interrogativo para o lanche.  Repetiu isso várias vezes, até restar somente um terço do pão.

─  Moça, não tem queijo aqui nesse misto!

A garçonete pegou o resto do sanduíche que sobrou na mão dele, abriu-o e constatou que não tinha queijo. Mostrou para as outras moças. Cochichou no ouvido da amiga, dizendo que talvez o sujeito já tivesse comido todo o queijo. Uma delas cheirou o sanduíche e confirmou: “não tem cheiro de queijo”. A outra sugeriu dar uma fatia de queijo para o freguês ficar quieto.

─  Não quero uma fatia de queijo. Eu pedi um misto: pão, presunto e queijo. Entendeu?

A moça, tentando evitar discussões constrangedoras, lhe ofereceu mais um misto frio de graça.
 
─ Não quero outro! Quero o que pedi! Comé que fica meu prejuízo?

Sem saber o que fazer, a garçonete chamou o gerente, explicando a situação. Ele propôs descontar o valor da fatia de queijo. O passageiro descontente e indignado retrucou:  

─ Não quero desconto. Fui enganado. Quero saber comé que fica meu prejuízo! Você não entende?

O gerente tentou acalmá-lo propondo devolver todo o dinheiro que pagara pelo sanduíche.

─ Não quero dinheiro!  Você não entende? Você não pode me devolver o que nunca lhe emprestei. Você não pode me dar o que nunca teve. Você não pode desfazer o que nunca fez. Você não pode fazer nada.  Eu só quero saber comé que fica meu prejuízo?  

Os dois amigos pagaram a conta e voltaram para o trabalho calados. Aquele trecho de conversa ficou martelando em seus pensamentos como prego em suas carnes.   

Como é que fica meu prejuízo? Quem vai restituir o apetite depois de enganada a fome?  Como preencher a falta do que nunca existiu? Como explicar a presença da ausência?  Como cobrar uma dívida se não há devedor? O que dizer para alguém que passou dois terços da vida esperando encontrar sua “fatia de queijo” que nuca existiu?  Quem vai me ressarcir o tempo, o gosto, a vontade, o prazer, a fome? Quem? Como é que fica meu prejuízo?  Você me entende?

MARIAMARILDA
Por Mara

ESSA MARIA QUE EU NEM SABIA
QUE ERA MARILDA,
QUE UM DIA POR CAUSA DE UMA PLANILHA,
QUE IRONIA,
ME ACOLHEU COM ALEGRIA.

O TEMPO PASSOU E EU  NEM SABIA,
QUE UM DIA SENTARIACOM ESSA MARIA
PRA FALAR DE POESIA.

Um abraço,
Mara
Já não vou às vinhas.
Vou às favas.
Vagem seca,
Vago vaga,
vadia,
vã.

Tens podado as vinhas?
Brotam brotos?
Cachos?
Galhos?
Uvas?

Minha reserva acabou
a adega está fechada
vindima falida
falo
nada.

Bons tempos aqueles
de tira-gostos
queijos,
beijos,
vinhos,
rostos
rimas.

Ríamos muito, lembra?


fresta

Não vou te dizer
o que deves vestir
ou despir ao me encontrar.
Nem te contar
a que vim,
o que fui,
onde andei,
o que vi
ou que vinho
deves servir no jantar.
Não quero
que me sirvas
como um servo cego
serve ao seu rei nu.
Teu reino não me seduz.
Só quero que saibas
que hoje,
eu caibo no ponto final
de tua interrogação,
no ápice de tua descrença,
no momento exato
de nossa breve existência,
no espaço vazio
dessa noite pagã.
Hoje,
serei o silêncio
de tuas reticências,
a ausência
de palavras inúteis,
a omissão
das fúteis promessas
e o motivo da tua falta de pressa
em acordar,
amanhã.

NEPENTHE



ELE: Nem te sabia e já te queria.Todo dia eu te inventava. Feito artesão, te esculpia.
ELA: Me guardava. Me prometia-te,
ELE: Cheguei. Desentristeça. Teça.
ELA: Tecerei. Te serei... sinto frio...
ELE: Trago lã para te aquecer.
ELA: Só queria te esquecer...
ELE: Ainda choves?
ELA: Chovo. Mas me faltam raios e rimas.
ELE: Perdestes a chave, poesia?
ELA: Fiquei presa por dentro. Ando mal de repentes.
ELE: E se eu chegasse de repente?
ELA: Assim em pleno expediente?
ELE: Sim, de presente.
ELA: Com teu olhar de indigente?
ELE: Sim... rs. Tem uma coisinha pra dar?
ELA: Tenho. Nepenthes.
ELE: Então me dá.
ELA: Entre!
ELE: Serpente...

(MarildaConfortin)

Nepenthe: Bebida mágica, remédio contra a tristeza; Planta carnívora; Do grego ne=não, e penthos=dor

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