DESEJO
(Vitor Hugo)

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você sesentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
Eque pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga `Isso é meu`,
Só para que fique bem claro quem é o dono dequem.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar esofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
Eque se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.

O NATAL DEPOIS DO NATAL QUE NÃO HOUVE



              Faz um ano, agora. Foi o ano em que não houve Natal, a não ser aquele maquiado, para o turista ver. Assustada com tudo o que acontecera, eu estava vivendo em poucos metros quadrados, no depósito de livros de uma editora, sem fogão, sem geladeira, sem chuveiro... SEM JANELA! Sentia-me uma privilegiada, no entanto, pela privacidade que tinha, pelos banhos de balde, pelo ventilador, por ter dinheiro para o restaurante e a padaria, pelo acesso em tempo integral a um computador e à Internet, depois que ela voltou a funcionar.  Quando me cansava de trabalhar ao computador, esticava um colchonete de camping dentre as caixas de livros e dormia, sob os cuidados do meu cachorro, que nem adulto ainda não era.
            Era bem diferente a situação das pessoas que estavam no abrigo público mais próximo, no entanto. Além de todos os desconfortos da falta de privacidade, havia as lembranças e a grande falta de perspectivas. Suas casas tinham explodido em um segundo, conforme me contou o artista plástico Tadeu Bittencourt que acontecera com a casa dele e conforme eu própria vira explodir as casas dianteiras do lugar onde morava – e as casas escorreram morros abaixo junto com os morros derretidos, e assim como as casas, sumiram também os terrenos, e já não havia para onde voltar.
            Naquele angustiante tempo de Natal, eu costumava tirar um tempinho para ir lá no abrigo fazer companhia àquela gente – não havia muito o que fazer, mas eu sentava lá e eles me contavam das suas vidas, e acho que isto era o melhor que eu conseguia fazer. Lembro muito de um senhor já idoso chamado seu Jacinto, que me contava de como trabalhara a vida inteira, de como criara os quatro filhos, de como fizera a casa dos seus sonhos, de como comprara redes espreguiçadeiras para a larga varanda de 54 metros quadrados onde recebia os filhos nos dias de festa, e de como ele e a mulher se deitavam nas redes, na hora do por do sol, e ficavam olhando a paisagem e se certificando da sua felicidade...
            Tudo aquilo sumira num segundo, e seu Jacinto era apenas um entre tantos, entre tantos, naquele abrigo e em tantos outros... Sou pródiga em primos, amigos, afilhados – poderia ter passado a noite de Natal em diversos lugares, mas achei que naquele ano, o ano passado, deveria estar com aquela gente naquele momento mágico que marca o meu ano. Foi bom. A cientista social Luzia e um lindo soldado de 18 anos se desdobraram na cozinha e usaram das muitas doações que a generosidade de todo o país mandara para a nossa cidade para fazerem uma ceia condigna, com quatro grandes perus recheados e mesa decorada com folhas das árvores circundantes. Eu fiquei ali ouvindo as histórias daquela gente até a madrugada, e o Natal se foi.
            Faz um ano, agora. Choveu dinheiro de todos os lados para resolver a situação de toda aquela gente que estava desabrigada faz um ano. Veio dinheiro de doações (tenho os números das contas bancárias das quais nunca ninguém jamais viu um extratozinho que fosse) e tenho cópias dos documentos de repasses de verbas milionárias que o Governo Federal fez para o governo do Estado de Santa Catarina – sempre  há aqueles espíritos de porco que dizem que o governo do Estado não distribuiu o dinheiro, mas então, como é que os demais municípios atingidos pela catástrofe estão fazendo as obras e as casas necessárias? Sei que choveu dinheiro,  mas os desabrigados de Blumenau, um ano depois, continuam nos tais abrigos provisórios. Indagorinha estive num deles para fazer uma visitinha ao seu Jacinto e sua mulher, e vi bem como é: a prefeitura alugou grandes galpões (claro, houve também o escândalo dos galpões superfaturados – não é exagero meu, saiu em todos os jornais, inclusive os da situação), e lá se vive, eu diria, mais que precariamente. Vou tentar contar um pouquinho:
            O galpão onde fui é alto, com teto de zinco. Imaginem o calor que fica sob aquele zinco nos 40 graus que faz nesta cidade – forno puro! Sob aquele zinco, tabiques de madeira à meia altura dividem famílias em cubículos, onde elas se amontoam, cada um ouvindo tudo o que se passa por detrás de todos os tabiques,  enquanto aquele dinheirão todo... cadê o dinheiro da reconstrução?
            Seu Jacinto me falou dos três containers que servem de banheiro para aquela gente toda – quantas pessoas? 150? 200? Disseram-me que há abrigo com mais de 450 pessoas...
            E então há a cozinha coletiva. As pessoas se organizaram, cada família ficou com duas bocas de fogão, e toda aquela gente cozinha e frita, frita bife, frita batata, frita banana... Todos os odores daquelas frituras todas viajam pelo oco entre os tabiques de madeira e o teto de zinco, e há um onipresente cheiro de fritura impregnando tudo, e tudo cheira a gordura rançosa, e a gente faz de conta que aquilo não está acontecendo, que se está mesmo na casa do seu Jacinto, e era assim que eu estava lá quando caiu uma chuvarada, e o barulho no zinco era tão grande que se tornava impossível continuar a conversar.
            É assim que está sendo o Natal de um ano depois do Natal que não houve. Tive a sorte de vir morar numa casinha que tem até cheiro de flor, onde crianças vem brincar na minha varanda  e há até estrelinhas luminosas do lado de fora da janela. E os que não tiveram sorte, como vai ser? Estão lá, assando sob o zinco, tomando banho em containers, sem privacidade, impregnados de cheiro de fritura...  As pessoas já pouco lembram deles...
            Quando se fará justiça nesta minha terra?


                Blumenau, 22 de dezembro de 2009.

                Urda Alice Klueger
                Escritora

FALANDO DE VOCÊ


de Vaneska M. Pegoraro,
para Marilda Confortin

Cabeça baixa,
passos firmes,
bom dia com a voz rouca,
perfume ao vento.

Às vezes nem isso ouvíamos,
depois de algum tempo,
ouvia-se um suspiro,
como quem pensa em algo que não volta.

Às vezes a risada entrava primeiro,
depois a festa de lhe ver animada
tomava conta de tudo.

Cabeça baixa,
passos firmes...
Sabíamos que a reunião havia sido mais que cansativa.

Às vezes o companheiro inseparável se queimava entre seus dedos,
queimando junto cada palavra não dita,
cada injustiça sofrida.

Cabeça baixa,
passos firmes,
perfume ao vento,
sorriso aberto,
dedos sempre em figa.

Às vezes era nítida a vontade de foragir-se
desse mundo, de si própria, ouso dizer!

Às vezes não permitia ser sensível,
deixando que as pessoas lhe agradassem.

Se para muitos era uma forma de puxar-lhe o “saco”
para outros era a sincera vontade
de fazer um mimo para quem se quer bem.

Às vezes as pessoas simplesmente passam,
e logo são esquecidas.
Às vezes, algumas pessoas marcam a vida da outra
sem nem mesmo ter noção disso,

Às vezes, pessoas como você
ficam gravadas no coração, na alma,
não por algum motivo especial ou heróico,
mas por ser uma pessoa que tem amor incondicional pela vida.

Cabeça baixa,
passos firmes...
peito aberto para desvendar o que quer que seja,
isso é falar de você, para você e,
com você sempre estarei, enquanto permitir.

Vaneska M. Pegoraro
16/12/2009

Vaneska trabalhou comigo na Secretaria de Educação.  Observadora, inteligente, sensível. Sacava meu humor só pelo barulho dos meus pés entrando no departamento. Às vezes tentava me acalmar, mas, sou meio ouriço... em vez de aceitar, eu largava espinhos em cima dela. Grande amiga. Mesmo naõ pertencendo mais à equipe de trabalho, não esquecerei de você e desse quarteto fantástico. Obrigada.
da esquerda: Vaneska, Angela, Marilda, Janice

Crise existencial

                                             Na despedida da Marilda





                              Trilhar o desconhecido
Gritar o que te sufoca
Demonstrar tua raiva
Sair desse marasmo

Calar quando não tem certeza
Sucumbir ao que te emociona

Hibernar tua angústia
Magoar-se com a injustiça
Ignorar o que te consome

Viajar ao seu íntimo

Hibernar quando necessário
Ligar quando tiver vontade
Refletir sobre o que te preocupa
Estressar-se com o que não concorda
Sorrir quando tua alma quiser se desvelar

Rir quando teu corpo pedir

Chorar sem o sentimento de fraqueza
Entregar-se sem medo do fracasso
Temer a maldade alheia

Sonhar com a perfeição impossível
Assumir tua responsabilidade
Despir essa vergonha
Mostrar a tua cara

Arriscar sem garantias
Duvidar do que te prometem
Desejar o que te faz bem

Curtir os pequenos prazeres
Viver com alegria
Aprender a cada momento
  
Angela Cristina Cavichiolo Bussmann - 15.12.2009


telefonemas podem constranger
um telefone brota do silêncio balançando meu olhar
trinados no ar concedem cara aos olhos do susto
borboletas me mordam, quem fala?
diz a voz vomitando da garganta o marrom da surpresa
distante 1.000 km o outro som demora dois micros segundos
para se associar à mente receptora
é a memória imprimindo-se no meu HD em contraluz
é o corpo imagem da voz logo reconhecida
boa noite! e a voz explicita o que não é mais preciso
agonia-me agora que ela se apagou na caixa de metal em seu mutismo
uma cachaça é preciso degustar para a intransigência da notícia
alguém diz que vem
meu corpo mais do que minha vontade não querem ser hospedeiros
levanto-me caio na noite como quem cai de um penhasco
sorte que o despenhadeiro tem apenas metro e meio
torço o tornozelo da arrogância
mendigo uma lástima
ninguém para dá-la
ninguém para aliviar e agora sou mal
talvez assassine alguém naquela esquina
talvez me jogue debaixo de um trem
fuga da fuga, pois aqui não passam estes monstros de ferro e desespero
hoje não é noite de assassinos e suicidas
melhor entrar num cinema e ver um velho filme de Godard
correndo com carros alucinados pela cidade
melhor mais dois goles de cachaça ou um malbec de Mendoza
caso sobre algum para isto
vou ligar de volta
enxotar o susto com meus ouvidos
completamente tamponados para vozes distantes
quem sabe ainda haja tempo e brote um:
__desculpe-me; foi engano
Tonicato Miranda
Curitiba, 22/Jun/2009.

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SHOW DA ORQUESTRA DE VIOLA E CANTORIA, NO GUAIRA DIA 12/12
FAREI UMA PARTICIPAÇÃO ESPECIAL
RECITANDO MINHA POESIA "TEMPORAL"




Velho Boêmio

Ele chega
atrasado, cansado,
se queixa,
amolece, enternece
e se ajeita em meu colo
pedindo consolo.

Daí ele pega e me beija
pergunta o que fiz,
nem espera e me diz
que tudo vai melhorar.

Fala que a lua
tá linda lá fora
e qualquer hora
me leva passear.

Vem com as mãos cheias
de bolhas (de samba)
e da manga do paletó
tira uma flor amassada
e me diz:
- Tó, amor, não fique zangada,
encontrei um amigo na estrada ...

Finjo que brigo
no fundo não ligo,
faz parte do jogo.

Jogado na cama
ele jura que me ama,
respondo: Eu também...
Agora e na hora de nossa morte amém

COMA


poema de JB. VIDAL

nasço e inauguro em mim a trajetória da morte,
início e fim, siameses do útero à campa,
como fonte, me insurjo, resisto,
consciente de sua presença, prossigo
sepultado vivo na matéria,
com a alma esgarçada na miséria
de um momento que ela mesma desconhece,
não há passado para o início não haverá futuro para o fim,
o que será dos meus pensares?
da razão? o que ficará dos sentidos?
das agonias, dos sofreres,
dos sentimentos, penso profundos,
o que será dos meus saberes?
não me falem de exemplos,
experiências, conhecimentos,
como óbolos para quem vem a seguir,
para eles há futuro, esquecer
não me venham com alegorias cenobitas,
relações de fé-imagem, palavras-reveladoras,
crenças obtusas oferecidas em sacras mansões, não!
digam apenas que estou louco,
que me debato em trevas,
que abreviei a trajetória,
que vivo morto por querer viver depois…

Poetrix


poetrix


MESTRA CRUEL - poesia


Poetas e Músicos da Noite Curitibana
dias 1, 2 e 3 na Biblioteca Pública




MARILDA POETA

Por Cláudio Fajardo

Ela ensina as palavras a falarem
Ela ensina as palavras a amarem
Ela ensina as palavras a andarem
Soltam-se e andam sozinhas
Andam pela vida,
vão pelas ruelas,
pelas estradas de chão,
pelo fim do caminho.


Amam no Largo da Ordem
Soltam-se dos dicionários
Animam-se, animam
Animam o animal homem,
Mulheram a vida.



Recebi essa homenagem do ilustre paranaense Cláudio Fajardo, atual diretor da Biblioteca Pública do Paraná. Um homem ligado à luta revolucionária, professor universitário, critico, poeta e amante dos livros. Para conhece mais a história dessa figura que marcou e marca a história do Paraná leiam uma entrevista que ele concedeu ao Thadeu Wojciechowski : http://polacodabarreirinha.blogspot.com/2005_09_01_archive.html

Eu fiquei muito emocionada com o poema e só depois de três dias, consegui me distanciar do alvo e lê-lo como como se não fosse dedicado a mim, sentindo a força da palavras, a beleza das metáforas, a contrução inteligente e sensível do poema. Como eu disse ao Mauro Barbosa, eu nem sabia que o Fajardo me sabia...  É provável que ele nunca leia esse comentário agradecido, mas isso não importa. Meu carinho e admiração por ele é eterno. 



Para Marilda

De Everly Canto


Portas abrem e fecham...
Anoitece e "ediece"...
Ganha-se e perde-se...
Nasce e morre-se...
Tudo vem e vai...
dinheiro, trabalho,

stress, sinusite,

dor de cabeça, preocupação....
O que fica então?
A amizade, carinho, amor...
O sabor do bom vinho,
A lembrança da cerveja gelada,
O descobrir sentada ao nosso lado a grande amiga,
A coragem, a fé e...
TUDO DE BOM QUE VOCÊ É!!!!!!


Everly foi uma dessas boas surpresas que a vida reserva pra gente.Trabalhávamos lado a lado, de cabeça baixa, envolvidas em assuntos sérios, complexos, estressantes. Não lembro quando tempo demoramos para prestar atenção uma na outra. Mas, lembro que um dia, pegamos carona com o filho dela. Ele nos  apresentou o Inferno, uma tequila que mudou o rumo de nossa amizade. Acabamos numa cervejaria, provando todos os tipos de cerveja que exisitia. Cairam todas as máscaras, todos os deuses, todos os conceitos e preconceitos. Não somos mais amigas. Somos irmãs. Pro que der e vier. 
 

QUANDO UM MENDIGO MENDIGA - de Tonicato Miranda


para para Sophia Loren e Catherine Deneuve

Se eu
lambesse com a língua curva
o parafuso mais recurvo de uma nave estelar
seria muito mais do que um boi estrelado
seria um quadrúpede intergaláctico e alado
Mas não,
sou touro do campo mesmo
lambendo chão, remoendo gramíneas
trespassando o corpo de porteira em porteiras
chifrando os horizontes e as segundas-feiras
Se eu
babasse a baba do ódio com o olho turvo
seria um demo de carranca na cara
meu frontispício assustando o espelho
a cara fugindo da imagem, qual coelho
Mas não,
tenho a cara santa e limpa
sorriso suave, noves fora da maldade
e até dizem tenho um rosto suave
que até confiança produz à pequena ave
Se eu
fosse um jacaré com dentes pontiagudos
ansiando o estômago por carne dilacerada
de frango, de galinhas e suas ninhadas
penas apenadas seriam na boca trituradas
Qual o quê…
sou quase vegetariano e verde
meus dentes e as bocas do meu olhar
miram mais os peixes e os frutos do mar
uma dúzia de camarões já me serve um manjar
Se eu
fosse um rude de queixo duro
gestos imprecisos, mãos e pés calejados
monossílabos frios e curtos no canto da boca
teria a voz sem cantares e arte, totalmente rouca
Qual o quê…
meu canto também é rouco
a voz, do princípio ao fim de um louco
apenas ressoa o muito brilho de um cântico
porque sou irremediavelmente romântico
Se eu
fosse o pergaminho de uma era
teria apenas poucos versos impressos
um poema de pedra e tons de verdes
na umidade da gaveta criando musgos mais verdes
Mas pra quê?
ninguém se interessa por poemas e poesias
nem por bois voadores e jacarés comedores de galinhas
muito menos por musgos e liquens
o mundo continua atrás dos verdes e seus níqueis
Se eu
fosse um mago da palavra
que um gesto da vara e no abracadabra
pudesse mudar o olhar da atriz
fa-la-ía mirar-me na platéia, deixando-me por um triz
Mas pra quê?
se a personagem e os atores da peça
somente à atriz seu olhar interessa
não vê que este pobre ser pedalador de bicicleta
não é homem, boi ou musgo, apenas um mendigo poeta

Sí señor, sí señor...

el vino puede sacar cosas que el hombre se calla...
Alberto Cortéz


O TEU BEM FAZ-ME TÃO MAL

O TEU BEM FAZ-ME TÃO MAL

Uma amiga que esteve em Portugal, assistiu um show com essa banda e disse que é muito boa. Fui conferir no youtube e achei essa preciosidade, Tem que ouir!
 


Mal por mal
Deolinda

Já sou quem tu queres que eu seja,
Tenho emprego e uma vida normal.
Mas quando acordo e não sei
Quem eu sou, quem me tornei
Eu começo a bater mal.
O teu bem faz-me tão mal!

Já me enquadro na tua estrutura.
Não ofendo a tua moral.
Mas quando me impões o meu bem
Eu ainda sinto aquém.
O teu bem faz-me tão mal,
O teu bem faz-me tão mal!

Sei que esperas que não desiluda,
Que por bem siga o teu ideal.
Mas não quero seguir ninguém
Por mais que me queiras bem.
O teu bem faz-me tão mal,
O teu bem faz-me tão mal!

Sei que me vais virar do avesso
Se eu te disser foi em mim que apostei.
Não, não é nada que me rale
Mesmo que me faças mal.
Do avesso eu te direi:
O teu mal faz-me tão bem!
JOAOZINHO SEM MEDO

Giovannin senza paura - Fábulas Italianas - coletadas por Ítalo Calvino (1923-1985)

Era uma vez um menino chamado Joãozinho-Sem-Medo, que não tinha medo de nada. Andava pelo mundo e um dia foi parar num hotelzinho distante da cidade onde pediu um quarto para passar a noite.

- Aqui não tem lugar - disse o dono. Mas se você não tem medo de nada mesmo, pode dormir lá naquele palácio abandonado.

- Por que eu teria medo?

- Porque lá, todo mundo fica com medo! – Disse o dono do hotel. Ninguém nunca saiu de lá vivo. Toda a manhã a funerária leva um caixão para enterrar quem teve coragem de passar a noite lá.

Imagine! Joãozinho não tinha medo de nada. Pegou um lampião, uma garrafa de vinho, um pedaço de pão, um salame e lá se foi.

À meia-noite, ele estava lá, sentado na sala do palácio, bem tranqüilo comendo pão com salame, quando ouviu uma voz saindo da chaminé:

- Boto?

E Joãozinho respondeu:

- Qué bota, bota, uai!

Então, da chaminé caiu uma perna de homem. Joãozinho bebeu um copo de vinho e nem deu bola prá perna sem corpo que ficou lá pulando que nem a perna perdida do saci-pererê.

Daí a voz tornou a perguntar:

- Boto?

E Joãozinho responde:

- Bota! Pode botar!

E caiu mais uma perna peluda de homem. Joãozinho comeu um pedaço de salame e nem olhou pras duas pernas de homem que caíram na sua frente.

- Boto?

- Bota logo! Disse Joãozinho

E a voz jogou mais um braço pela chaminé. Joãozinho começou a assoviar uma música. Fiuuuufiuiiifiuuuu...Fiuuuufiuiiifiuuuu

- Boto?

- Bota logo!

E caiu outro braço.

- Boto?

- Bota!

E caiu um corpo enorme. As pernas e os braços correram e se grudaram no corpo que caiu. E lá ficou aquele homem sem cabeça, na frente do Joãozinho...

- Boto?

- Bota!

E caiu uma cabeça horrível que ficou quicando no chão que nem bola e pulou em cima daquele corpo. Era um homenzarrão gigante e Joãozinho levantou o copo dizendo:

- Saúde, seu Bota! Quer um copo de vinho?

O homenzarrão muito sério e desajeitado disse:

- Pegue o lampião e venha.

Joãozinho pegou o lampião, mas não se mexeu do lugar.

- Venha! Disse o homem.

- Vai na frente - disse Joãozinho

-Vai você! - disse o homem

- Vai você! - disse Joãozinho

Então o homem passou na frente e foi passando de sala em sala e atravessou o palácio, com Joãozinho atrás, iluminando. Debaixo de uma escada tinha uma porta.

- Abra! - disse o homem.

E Joãozinho:

- Abra você!

E o homem deu um empurrão na porta que se abriu fazendo um barulhão. Havia uma escada em caracol

- Desça - disse o homem

- Primeiro você - disse Joãozinho.

Desceram a um porão escuro, úmido, fedorenteo e cheio de teias de aranhas e baratas. Lá embaixo, o homem mostrou uma caixa que parecia um baú de pirata,  bem grande,  tampado com uma tábua de madeira bem pesada.

- Abra! Disse o homem.

- Abra você! - disse Joãozinho, e o homem levantou a tampa pesada como se fosse uma folha de papel.

Dentro da grande caixa, havia três potes cheios de moedas de ouro

- Leve para cima! - disse o homem

- Leve você! - disse Joãozinho. E o homem levou um pote de cada vez para cima.

E os dois voltaram para a sala do palácio de onde saiu aquele homem aos pedaços pela chaminé. Chegando lá o homem disse:

- Joãozinho, por causa da sua coragem a maldição foi quebrada! – E arrancou uma perna do corpo, e ela saiu esperneando pela chaminé – Um destes potes de outro é seu, Joãozinho. - Arrancou um braço, que foi subindo pela chaminé. – Outro pote é para a funerária que virá buscá-lo amanhã de manhã pensando que você está morto. - Arrancou outro braço, que foi correndo pra chaminé - O terceiro pote é para o primeiro pobre que passar na tua frente. – Arrancou a outra perna que foi pulando pra chaminé e o corpo caiu sentado no chão - Pode ficar com o palácio também.Não preciso mais dele - Arrancou o corpo e ficou só a cabeça pulando no chão. Eu era o último dono deste palácio, disse a cabeça. Agora vou me juntar aos meus parentes. Adeus! - E a cabeça saiu rolando e subiu, subiu até sumir pelo buraco da chaminé.

Assim que amanheceu, Joãozinho ouviu uma procissão de gente vindo em direção ao palácio cantando assim: Miserere mei, miserere mei. Era o pessoal da funerária que vinha com o caixão pra buscar o Joãozinho pensando que ele tinha morrido. Mas ele estava era bem vivo e deu um pote de moedas de ouro para o dono da funerária.

Dali a pouco passou um mendigo, muito muito pobre pedindo um pedaço de pão. Joãozinho deu a ele o outro pote de moedas de ouro.O mendigo saiu pulando de alegria.

Joãozinho-Sem-Medo ficou muito rico com o pote cheio de moedas de ouro que ganhou daquele homem que caía em pedaços da chaminé. E viveu feliz no palácio por muitos e muitos anos.

Até que um dia foi andar pelos jardins do palácio e viu sua pela primeira vez sua própria sombra no chão.Deu um grito e um pulo. E a sombra pulou junto. Joãozinho levou um susto tão grande, mas tão grande que caiu duro. E morreu de susto.

Giovannin senza paura - Fábulas Italianas - coletadas por Ítalo Calvino (1923-1985)


monge,
che te fa bene!


RAUL POUGH
Dois Cães Vagabundos
para qualquer fêmea
rodei pelos calcanhares
rodei pelos bares
fazia calor, muito calor
cansei da noite, cansei do dia
um cão perdido me fez companhia
sentamos juntos na beirada da guia
no riacho ao lado nenhuma gia
a cantar, a brotar um solitário olá
apenas pairava no ar a magia
de estar ali na sala de estar
da cidade, da fantasia
eu e o cachorro a sua espera
na esperança de um olá
esperando sermos adotados
por um lar, por você
Tonicato Miranda
Curitiba, 3/11/2009

Conversa com um velho rio

Toda vez que passo na frente daquele riozinho ele me diz:
- Passeando dona louca?
Jogo uma pedra nele e continuo minha caminhada. Ele se enfia debaixo de uma pinguela e me provoca novamente:
- Ô dona doida, ainda não parou de falar com as coisas?
Nem tenho tempo de responder e ele já entra numa enorme manilha e se esconde outra vez. Uma pedrinha curiosa se solta da mão da mãe e rola até meus pés para brincar. A grande rocha, silenciosa, apenas observa. Somos velhas amigas. Cúmplices dos tempos.Um bando de garças adolescentes  faz cocô na minha cabeça. Os bem-te-vis caem na gargalhada. 
Um ipê amarelo, me chama de careca. Pode deixar... Eu me vingo na próxima estação...
Cumprimento uma velha roseira. Ela nem me dá bola. Sempre esqueço que as rosas não falam.

Aqui era puro mato!
Agora não passa de um canteiro urbano.
Asfaltaram as trilhas, arrancaram árvores,  represaram o rio. 
Por isso ele ficou sujo e malcriado desse jeito. ntes, corríamos livres e conhecíamos cada pé de amora que morava aqui. O pé de chorão e eu ficávamos horas debruçados sobre o rio ouvindo suas histórias de águas passadas. Ele me chama de doida, mas quem perdeu o rumo foi ele.
Fizeram o pobrezinho engolir desaforo, desviaram seu curso,
Obrigando-o a andar escondido nas galerias subterrâneas da cidade, como se fosse um...  um marginal.
Represado, teve que se fingir de morto, de surdo, de mudo, de bobo...  
Ah... como se eu não te conhecesse de outros tempos, meu velho rio Belém... 
 
- Vá tomar banho, sua doida varrida!
Não posso mais tomar banho contigo, querido. É proibido! Não posso nem ficar aqui sentada te olhando.
É perigoso, sabe? Você ficou perigoso, venenoso, poluído..E se me pegam falando com você, me internam num manicômio. 

Ele me chama de doida que fala com as coisas,  mas doidos mesmo, são aqueles que pararam de ouvir as coisas.Os que calaram a gralha azul, cortaram nossas araucárias e plantaram pinus, pra dar luz elétrica em vez de  pinhão.
Insanos mesmo, são aqueles que nos entupiram de lixo, esgoto, veneno, taparam nossa boca com pixe e nos condenaram a esse... esse barulho ensurdecedor.
publicado no livro Busca e apreensão

O Rio Belém é um rio genuinamente curitibano e sua extensão é de 21 km. A nascente e a foz estão dentro de Curitiba. O rio nasce no bairro da Cachoeira e deságua nas cavas do Rio Iguaçu, no Boqueirão. Sua Bacia Hidrográfica abrange 35 bairros.
O Rio Belém passou por vários processos antrópicos que alteraram sua fisiografia, bem como sua hidrodinâmica. Na década de 1930 teve sua extensão retificada, onde um trecho do rio com 17,8 km passou a ter 7,2 km, no centro da cidade, área intensamente urbanizada, foi canalizado para dar espaço as construções. Teve suas margens devastadas e ocupadas irregularmente e lançamentos de esgoto são encontrados com freqüência por todo seu comprimento.
É o rio mais poluído da cidade. 
Já existem projetos para a revitalização do rio. Foi foi criado recentemente o Parque Nascente do Rio Belém, com mais de quarenta mil metros quadrados para preservar a natureza. Existem várias campanhas de despoluição do rio e demonstrações de carinho da comunidade como o "abraço ao rio belém" realizado anualmente cuja foto encerra este texto.

ORAÇÃO DA VELHICE




Ó Senhor, tu sabes melhor do que eu que estou envelhecendo a cada dia.
Sendo assim, livra-me da tolice de achar que devo dizer algo, em toda e qualquer ocasião.

Livra-me, também, Senhor, deste desejo enorme que tenho
de querer pôr em ordem a vida dos outros.

Ensina-me a pensar nos outros e ajudá-los, sem jamais me impor sobre eles, mesmo considerando com modéstia a sabedoria que acumulei e que penso ser uma lástima não passar adiante.


Tu sabes, Senhor, que desejo preservar alguns amigos e uma boa relação com os filhos e que só se preservam os amigos e os filhos... quando não há intromissão na vida deles.

Livra-me, também, Senhor, da tolice de querer contar tudo com detalhes e minúcias
e dá-me asas para voar diretamente ao ponto que interessa.

Não me permita falar mal de alguém.
Ensina-me a fazer silêncio sobre minhas dores e doenças..
Elas estão aumentando e, com isso,  
a vontade de descrevê-las vai crescendo a cada ano que passa.


Não ouso pedir o dom de ouvir com alegria
a descrição das doenças alheias; seria pedir muito.
Mas, ensina-me, Senhor, a suportar ouvi-las com paciência.

Ensina-me a maravilhosa sabedoria de saber que posso estar errado em algumas ocasiões.
Já descobri que pessoas que acertam sempre são maçadoras e desagradáveis.

Mas, sobretudo, Senhor, nesta prece de envelhecimento,
peço: mantenha-me o mais amável possível.

Livrai-me de ser santo(a).
É difícil conviver com santos!

Mas um(a) velho(a) rabugento(a), Senhor,
é obra prima do diabo!
Me poupe!!!

Amém!
(Desconheço o autor. Se alguém souber de quem é, favor me comunicar)

UM BRINDE - poesia

Este poema foi classificado no Concurso Nacional de Poesias Lindolfo Bell e é uma homenagem a todos os poetas.

Cansado de Viagens - de Tonicato Miranda


para Marilda Confortin



o ônibus, o caminhão, a estrada, a paisagem
Milton Santos na minha mão
a fazenda e verdes no meu olhar
nos ouvidos “Round Midnight” e um pistão

Chet Baker vai viajando-me os sentidos
morros e mais morros lá longe, na Terra
a paisagem de uma estradinha campesina
não a da Marilda, mas uma estrada de terra

verdes vão pontilhando meu olhar
um acordeon e argentinos nos ouvidos a castelhanear
mas o rio na minha visão é inteiramente brasileiro
verdes de doer a retina vêm se entregar

quais personagens me habitam?
para onde viajo tanto
singrando a pele do planeta
pra quê? se basta-me um só canto

qualquer dia desses salto no meio do caminho
e vou, como um boi indolente, tal uma rês
com saudades de todos vocês
mas vou, mas vou, e vou...

Tonicato Miranda
Interior de São Paulo
20/10/2009.





Obrigada pela homenagem, amigo Tonicato.
Sempre te imagino pedalando, não pelas ciclovias que você cria nesse nosso brasilisão afora, mas por uma estrada de terra que te leva a uma casinha na beira de um rio, com uma latinha cheia de minhocas, um caniço de bambu, um chapéu de palha, calças arregaçadas até quase no joelho, um livro da Helena Kolody debaixo do braço, uma expressão de paz no rosto e um sorriso maroto de menino que matou a aula para pescar.

Tonicado Miranda é um poeta curitibano. Tem vários trabalhos publicado. Foi um dos mais assíduos amigos da poeta Helena Colody. Foi livreiro, dono da Ipê Amarelo. Hoje trabalha com citymarketing, desenvolvendo projeto de ciclovias para as principais cidades brasileiras.
POEMÍNIMOS DE TCHELLO 


Tchello d´Barros é poeta, escritor, artista plástico e ator catarinense, que começou a vida sendo premiado com desenhos, até realizar exposições no Brasil e no exterior, participa de antologias poéticas, publica livros, atua no teatro e milita nos mais diversos eventos culturais e artísticos. Nos conhecemos num desses encontros de poesia que ocorrem nesse Brasilsão. Atualmente Tchello mora em Maceió. 
 

POETRIX

corpo estranho...


cisco no meu olho
quando te enxerguei,
fiquei cega... de amor.

Adoção



Adotei uma pequena Solidão abandonada, que me rondava há anos.

Eu a conheci numa madrugada insone e fria, quando ela bateu à minha porta e me pediu pouso.

Dividimos um livro, um cobertor e um pedaço de pão. Quando amanheceu ela saiu sorrateira.

Desde aquele tempo eu já abrigava um monte de ilusões malogradas, alimentava um cardume de sonhos e cuidava de um velho amor moribundo. Isso sem mencionar o esforço que eu fazia para arrastar um caminhão de esperanças perdidas, sustentar dúzias de projetos fracassados e tratar de um bando de menores problemas abandonados. Meu orfanato estava sempre cheio.

Mas, nos últimos tempos, a tal Solidãozinha começou a me visitar freqüentemente.
Aparecia em plena luz do dia e passava o fim de semana lá em casa. Quando ia embora, a pequena ladra sempre me roubava uma esperança ou uma das minhas ilusões preferidas.

Começou a trazer amigas para jantar, a folgada. Conheci Saudade, sua fiel escudeira. Interessante, faladeira, criativa. Contava cada história... e sempre me trazia uma lembrancinha de presente. Tristeza, sua outra amiga, entrava sorrateira e se escondia pelos cantos, quieta, na espreita, só esperando um velho amor morrer, para tomar seu lugar. Menina estranha, a Tristezinha. É só eu me descuidar e ela já fica toda espaçosa e se instala na minha cama.

Meus pupilos preferidos são o Silêncio e a Paz. A pequena Solidão se deu muito bem com eles.

À vezes, eu tranco todos esses filhos bastardos dentro de um baú e fujo para a rua. Vou me divertir um pouco com Alegrias Passageiras. Elas são tão lépidas e bonitas. Pena que são efêmeras como as borboletas. Em pouco tempo se transformam e terríveis lagartas, prendem a gente em seus casulos e nos devoram.

Acho que além da pequena Solidão, vou adotar também a Saudade, o Silêncio e a Paz. São bem mais fiéis e confiáveis que as Alegrias Passageiras.

Por Marilda Confortin

Eu, pecadora, confesso:
Sou reincidente no amor.
Mas não mereço a pena
Careço é de pena, Meritíssimo!
Cristo disse:
“Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”
... acreditei!



Poema de Cleci Rita Confortin. Minha irmã querida.

Causus poéticos

de Daniel Faria
para mana Marilda

Daniel e eu, conversando com JK

Seria preciso que um poeta, desses que andam na contramão do tempo, saudasse a tua história.

História construída com sangue italiano, suor, 
solidão e muitas cervejas.
Menina campeira correndo solta pelos alagados
e campos destas terras brasileiras.
Correndo atrás de boi, de vaca, de bicho, de cerca.
Correndo atrás da vida.
Amargavida.
Duravida de moça dos interiores sulistas.
De repente a Capital. A cidade louca cheia de sons, desafios, perigos...
Que medo!
A moça para no sinal vermelho.
A cidade assusta, embaralha, desordena a visão.
Ela não sabe ainda que outra visão se anuncia.
A moça pressente as palavras. 
Mas não são as palavras.
São as PALAVRAS.
Alguma coisa lhe diz, na metamorfose do tempo, 
que outro tempo existe.
Tempo de absoluta poesia.
E a moça escuta a voz de poeta, que lá dentro já se fazia.
Uma voz que grita, berra, uiva, acaricia.
Voz antiga que  a moça sem sabia.
E a cidade agora aparece inteira 
com seus Largos e desordenados caminhos.
Sacra, profana, felizinfeliz, cinzenta e azul, verde e vício, 
templo e perdição.


Abraços do arteiro - Menestrel Daniel Faria

Daniel Faria...  como definir esse professor, poeta, músico, arteiro e amigo? Como resumir tudo o que já fizemos, vivemos, cantamos, poetizamos, trabalhamos, rimos, xingamos? Não dá, cumpade... num dá.  Nossa história tá por aí, nas bibliotecas da cidade, nas lembrança das pessoas, em nós. Valeu, mano véio!


In mezzo al mare
Um brinde!

Poesia é uma Flor Bela que Espanca,
fere, maltrata.
Poesia quando ataca provoca cirrose,
divórcio, taquicardia, tuberculose...
Poesia mata!
Por isso, os grandes poetas estão mortos.
Por isso, os poetas vivos são assim tão... tortos.
Só loucos, vivem a poesia em sua essência.
Em sã consciência,
a hipocrisia desta vida é insalubre,
arde feito urtiga e é mais fria
do que a vodka Maiakowski que consumia Leminski.

Por isso eu ergo uma taça e brindo
a todos os malditos poetas,
seres vis, errados
vicerados pelo avesso,
não servis,
citados,
anônimos e abominados
que rabiscam e recitam seus manuscritos
pelos botecos,
sebos,
saraus e feiras
livres prisioneiros da poesia.

Aos benditos que publicam e são lidos
e aos amaldiçoados ficam empoeirados,
empoleirados nas prateleiras,
criando teia,
esperando que um dia alguém os leia.

Aos que travestem a poesia com barro,
tinta,  efeitos virtuais,
acordes musicais
e passam pela vida despercebidos.

Um brinde aos que partem cedo
com medo de verem suas almas
sendo dissecadas por críticos estúpidos.

Poesia é de quem precisa dela, já dizia Neruda.
Se você não precisa,
não leia,
não ouça,
não toque!
Ela é como um feto:
precisa de calor e útero
e não de um fórcipe obstetra.

E mais um brinde
a todos aqueles que atuam à luz do dia,
nesse imenso palco,
de paletó, gravata, saia justa, salto alto,
e esperam impacientes a aposentadoria
para enfim, declarar seu amor pela poesia.

Aos entraram na fila errada
e estão neste mundo por engano
só para diversão dos deuses:
Não escrevem, não cantam,
não esculpem nem declamam.
Mas sentem, lêem, amam e acolhem
anonimamente a poesia em seus ventres.


Um brinde a todos os recipientes!

(poema de Marilda Confortin, classificado no Concurso Nacional de Poesias Lindolfo Bel)

POETRIX

REUNI ALGUNS DOS MEUS POETRIX ILUSTRADOS NUM PEQUENO VÍDEO.ESPERO QUE GOSTEM

 Na morada

Sobre meu texto "Na morada", recebi dois comentários poéticos que não há como não republicá-los aqui.



Marilda…
Por Manoel de Andrade


Chego a essa tua morada,
pra perguntar com meu canto,
pela poesia , mais nada
e pra beber seu encanto.

Aonde achas teus versos?
como nasce a inspiração?
teus apetrechos, diversos,
inscritos no coração…

Não quero a escova de dente
só a amante das poesias…
esse astral de namorada,

e que digas, a mim somente,
em que fonte te sacias
pra cantar tão inspirada.

Manoel de Andrade 20.07.09




Marilda,

Por Tonicato Miranda

Quanto mais te leio mais te glorifico.
Pouco te conheço e quase já te conheço.
Este poema…Ah este poema.

O que dizer que não está dito?
Por isto mesmo agora repito:
Marilda quase te conheço.

Por que demorei tantos anos assim?
Em quais mundos paralelos voavam minhas asas?
Para não ver tuas janelas cheias de frestas.

Grande poema, Marilda.

“Lá em casa tem creme pra cabelo seco,
molhado, pixaco, loiro, ruivo e preto.
Tem óleo, toalha e escova de dente
vá que alguém de repente resolva pernoitar.”

Que coisa linda, Marilda.

Grande Abraço, palavreira.
TM

Muito obrigada meus amados Manoel e Tonicato.Minha casa está sempre aberta à vocês.
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