Para Marilda

De Everly Canto


Portas abrem e fecham...
Anoitece e "ediece"...
Ganha-se e perde-se...
Nasce e morre-se...
Tudo vem e vai...
dinheiro, trabalho,

stress, sinusite,

dor de cabeça, preocupação....
O que fica então?
A amizade, carinho, amor...
O sabor do bom vinho,
A lembrança da cerveja gelada,
O descobrir sentada ao nosso lado a grande amiga,
A coragem, a fé e...
TUDO DE BOM QUE VOCÊ É!!!!!!


Everly foi uma dessas boas surpresas que a vida reserva pra gente.Trabalhávamos lado a lado, de cabeça baixa, envolvidas em assuntos sérios, complexos, estressantes. Não lembro quando tempo demoramos para prestar atenção uma na outra. Mas, lembro que um dia, pegamos carona com o filho dela. Ele nos  apresentou o Inferno, uma tequila que mudou o rumo de nossa amizade. Acabamos numa cervejaria, provando todos os tipos de cerveja que exisitia. Cairam todas as máscaras, todos os deuses, todos os conceitos e preconceitos. Não somos mais amigas. Somos irmãs. Pro que der e vier. 
 

QUANDO UM MENDIGO MENDIGA - de Tonicato Miranda


para para Sophia Loren e Catherine Deneuve

Se eu
lambesse com a língua curva
o parafuso mais recurvo de uma nave estelar
seria muito mais do que um boi estrelado
seria um quadrúpede intergaláctico e alado
Mas não,
sou touro do campo mesmo
lambendo chão, remoendo gramíneas
trespassando o corpo de porteira em porteiras
chifrando os horizontes e as segundas-feiras
Se eu
babasse a baba do ódio com o olho turvo
seria um demo de carranca na cara
meu frontispício assustando o espelho
a cara fugindo da imagem, qual coelho
Mas não,
tenho a cara santa e limpa
sorriso suave, noves fora da maldade
e até dizem tenho um rosto suave
que até confiança produz à pequena ave
Se eu
fosse um jacaré com dentes pontiagudos
ansiando o estômago por carne dilacerada
de frango, de galinhas e suas ninhadas
penas apenadas seriam na boca trituradas
Qual o quê…
sou quase vegetariano e verde
meus dentes e as bocas do meu olhar
miram mais os peixes e os frutos do mar
uma dúzia de camarões já me serve um manjar
Se eu
fosse um rude de queixo duro
gestos imprecisos, mãos e pés calejados
monossílabos frios e curtos no canto da boca
teria a voz sem cantares e arte, totalmente rouca
Qual o quê…
meu canto também é rouco
a voz, do princípio ao fim de um louco
apenas ressoa o muito brilho de um cântico
porque sou irremediavelmente romântico
Se eu
fosse o pergaminho de uma era
teria apenas poucos versos impressos
um poema de pedra e tons de verdes
na umidade da gaveta criando musgos mais verdes
Mas pra quê?
ninguém se interessa por poemas e poesias
nem por bois voadores e jacarés comedores de galinhas
muito menos por musgos e liquens
o mundo continua atrás dos verdes e seus níqueis
Se eu
fosse um mago da palavra
que um gesto da vara e no abracadabra
pudesse mudar o olhar da atriz
fa-la-ía mirar-me na platéia, deixando-me por um triz
Mas pra quê?
se a personagem e os atores da peça
somente à atriz seu olhar interessa
não vê que este pobre ser pedalador de bicicleta
não é homem, boi ou musgo, apenas um mendigo poeta

Sí señor, sí señor...

el vino puede sacar cosas que el hombre se calla...
Alberto Cortéz


O TEU BEM FAZ-ME TÃO MAL

O TEU BEM FAZ-ME TÃO MAL

Uma amiga que esteve em Portugal, assistiu um show com essa banda e disse que é muito boa. Fui conferir no youtube e achei essa preciosidade, Tem que ouir!
 


Mal por mal
Deolinda

Já sou quem tu queres que eu seja,
Tenho emprego e uma vida normal.
Mas quando acordo e não sei
Quem eu sou, quem me tornei
Eu começo a bater mal.
O teu bem faz-me tão mal!

Já me enquadro na tua estrutura.
Não ofendo a tua moral.
Mas quando me impões o meu bem
Eu ainda sinto aquém.
O teu bem faz-me tão mal,
O teu bem faz-me tão mal!

Sei que esperas que não desiluda,
Que por bem siga o teu ideal.
Mas não quero seguir ninguém
Por mais que me queiras bem.
O teu bem faz-me tão mal,
O teu bem faz-me tão mal!

Sei que me vais virar do avesso
Se eu te disser foi em mim que apostei.
Não, não é nada que me rale
Mesmo que me faças mal.
Do avesso eu te direi:
O teu mal faz-me tão bem!
JOAOZINHO SEM MEDO

Giovannin senza paura - Fábulas Italianas - coletadas por Ítalo Calvino (1923-1985)

Era uma vez um menino chamado Joãozinho-Sem-Medo, que não tinha medo de nada. Andava pelo mundo e um dia foi parar num hotelzinho distante da cidade onde pediu um quarto para passar a noite.

- Aqui não tem lugar - disse o dono. Mas se você não tem medo de nada mesmo, pode dormir lá naquele palácio abandonado.

- Por que eu teria medo?

- Porque lá, todo mundo fica com medo! – Disse o dono do hotel. Ninguém nunca saiu de lá vivo. Toda a manhã a funerária leva um caixão para enterrar quem teve coragem de passar a noite lá.

Imagine! Joãozinho não tinha medo de nada. Pegou um lampião, uma garrafa de vinho, um pedaço de pão, um salame e lá se foi.

À meia-noite, ele estava lá, sentado na sala do palácio, bem tranqüilo comendo pão com salame, quando ouviu uma voz saindo da chaminé:

- Boto?

E Joãozinho respondeu:

- Qué bota, bota, uai!

Então, da chaminé caiu uma perna de homem. Joãozinho bebeu um copo de vinho e nem deu bola prá perna sem corpo que ficou lá pulando que nem a perna perdida do saci-pererê.

Daí a voz tornou a perguntar:

- Boto?

E Joãozinho responde:

- Bota! Pode botar!

E caiu mais uma perna peluda de homem. Joãozinho comeu um pedaço de salame e nem olhou pras duas pernas de homem que caíram na sua frente.

- Boto?

- Bota logo! Disse Joãozinho

E a voz jogou mais um braço pela chaminé. Joãozinho começou a assoviar uma música. Fiuuuufiuiiifiuuuu...Fiuuuufiuiiifiuuuu

- Boto?

- Bota logo!

E caiu outro braço.

- Boto?

- Bota!

E caiu um corpo enorme. As pernas e os braços correram e se grudaram no corpo que caiu. E lá ficou aquele homem sem cabeça, na frente do Joãozinho...

- Boto?

- Bota!

E caiu uma cabeça horrível que ficou quicando no chão que nem bola e pulou em cima daquele corpo. Era um homenzarrão gigante e Joãozinho levantou o copo dizendo:

- Saúde, seu Bota! Quer um copo de vinho?

O homenzarrão muito sério e desajeitado disse:

- Pegue o lampião e venha.

Joãozinho pegou o lampião, mas não se mexeu do lugar.

- Venha! Disse o homem.

- Vai na frente - disse Joãozinho

-Vai você! - disse o homem

- Vai você! - disse Joãozinho

Então o homem passou na frente e foi passando de sala em sala e atravessou o palácio, com Joãozinho atrás, iluminando. Debaixo de uma escada tinha uma porta.

- Abra! - disse o homem.

E Joãozinho:

- Abra você!

E o homem deu um empurrão na porta que se abriu fazendo um barulhão. Havia uma escada em caracol

- Desça - disse o homem

- Primeiro você - disse Joãozinho.

Desceram a um porão escuro, úmido, fedorenteo e cheio de teias de aranhas e baratas. Lá embaixo, o homem mostrou uma caixa que parecia um baú de pirata,  bem grande,  tampado com uma tábua de madeira bem pesada.

- Abra! Disse o homem.

- Abra você! - disse Joãozinho, e o homem levantou a tampa pesada como se fosse uma folha de papel.

Dentro da grande caixa, havia três potes cheios de moedas de ouro

- Leve para cima! - disse o homem

- Leve você! - disse Joãozinho. E o homem levou um pote de cada vez para cima.

E os dois voltaram para a sala do palácio de onde saiu aquele homem aos pedaços pela chaminé. Chegando lá o homem disse:

- Joãozinho, por causa da sua coragem a maldição foi quebrada! – E arrancou uma perna do corpo, e ela saiu esperneando pela chaminé – Um destes potes de outro é seu, Joãozinho. - Arrancou um braço, que foi subindo pela chaminé. – Outro pote é para a funerária que virá buscá-lo amanhã de manhã pensando que você está morto. - Arrancou outro braço, que foi correndo pra chaminé - O terceiro pote é para o primeiro pobre que passar na tua frente. – Arrancou a outra perna que foi pulando pra chaminé e o corpo caiu sentado no chão - Pode ficar com o palácio também.Não preciso mais dele - Arrancou o corpo e ficou só a cabeça pulando no chão. Eu era o último dono deste palácio, disse a cabeça. Agora vou me juntar aos meus parentes. Adeus! - E a cabeça saiu rolando e subiu, subiu até sumir pelo buraco da chaminé.

Assim que amanheceu, Joãozinho ouviu uma procissão de gente vindo em direção ao palácio cantando assim: Miserere mei, miserere mei. Era o pessoal da funerária que vinha com o caixão pra buscar o Joãozinho pensando que ele tinha morrido. Mas ele estava era bem vivo e deu um pote de moedas de ouro para o dono da funerária.

Dali a pouco passou um mendigo, muito muito pobre pedindo um pedaço de pão. Joãozinho deu a ele o outro pote de moedas de ouro.O mendigo saiu pulando de alegria.

Joãozinho-Sem-Medo ficou muito rico com o pote cheio de moedas de ouro que ganhou daquele homem que caía em pedaços da chaminé. E viveu feliz no palácio por muitos e muitos anos.

Até que um dia foi andar pelos jardins do palácio e viu sua pela primeira vez sua própria sombra no chão.Deu um grito e um pulo. E a sombra pulou junto. Joãozinho levou um susto tão grande, mas tão grande que caiu duro. E morreu de susto.

Giovannin senza paura - Fábulas Italianas - coletadas por Ítalo Calvino (1923-1985)


monge,
che te fa bene!


RAUL POUGH
Dois Cães Vagabundos
para qualquer fêmea
rodei pelos calcanhares
rodei pelos bares
fazia calor, muito calor
cansei da noite, cansei do dia
um cão perdido me fez companhia
sentamos juntos na beirada da guia
no riacho ao lado nenhuma gia
a cantar, a brotar um solitário olá
apenas pairava no ar a magia
de estar ali na sala de estar
da cidade, da fantasia
eu e o cachorro a sua espera
na esperança de um olá
esperando sermos adotados
por um lar, por você
Tonicato Miranda
Curitiba, 3/11/2009

Conversa com um velho rio

Toda vez que passo na frente daquele riozinho ele me diz:
- Passeando dona louca?
Jogo uma pedra nele e continuo minha caminhada. Ele se enfia debaixo de uma pinguela e me provoca novamente:
- Ô dona doida, ainda não parou de falar com as coisas?
Nem tenho tempo de responder e ele já entra numa enorme manilha e se esconde outra vez. Uma pedrinha curiosa se solta da mão da mãe e rola até meus pés para brincar. A grande rocha, silenciosa, apenas observa. Somos velhas amigas. Cúmplices dos tempos.Um bando de garças adolescentes  faz cocô na minha cabeça. Os bem-te-vis caem na gargalhada. 
Um ipê amarelo, me chama de careca. Pode deixar... Eu me vingo na próxima estação...
Cumprimento uma velha roseira. Ela nem me dá bola. Sempre esqueço que as rosas não falam.

Aqui era puro mato!
Agora não passa de um canteiro urbano.
Asfaltaram as trilhas, arrancaram árvores,  represaram o rio. 
Por isso ele ficou sujo e malcriado desse jeito. ntes, corríamos livres e conhecíamos cada pé de amora que morava aqui. O pé de chorão e eu ficávamos horas debruçados sobre o rio ouvindo suas histórias de águas passadas. Ele me chama de doida, mas quem perdeu o rumo foi ele.
Fizeram o pobrezinho engolir desaforo, desviaram seu curso,
Obrigando-o a andar escondido nas galerias subterrâneas da cidade, como se fosse um...  um marginal.
Represado, teve que se fingir de morto, de surdo, de mudo, de bobo...  
Ah... como se eu não te conhecesse de outros tempos, meu velho rio Belém... 
 
- Vá tomar banho, sua doida varrida!
Não posso mais tomar banho contigo, querido. É proibido! Não posso nem ficar aqui sentada te olhando.
É perigoso, sabe? Você ficou perigoso, venenoso, poluído..E se me pegam falando com você, me internam num manicômio. 

Ele me chama de doida que fala com as coisas,  mas doidos mesmo, são aqueles que pararam de ouvir as coisas.Os que calaram a gralha azul, cortaram nossas araucárias e plantaram pinus, pra dar luz elétrica em vez de  pinhão.
Insanos mesmo, são aqueles que nos entupiram de lixo, esgoto, veneno, taparam nossa boca com pixe e nos condenaram a esse... esse barulho ensurdecedor.
publicado no livro Busca e apreensão

O Rio Belém é um rio genuinamente curitibano e sua extensão é de 21 km. A nascente e a foz estão dentro de Curitiba. O rio nasce no bairro da Cachoeira e deságua nas cavas do Rio Iguaçu, no Boqueirão. Sua Bacia Hidrográfica abrange 35 bairros.
O Rio Belém passou por vários processos antrópicos que alteraram sua fisiografia, bem como sua hidrodinâmica. Na década de 1930 teve sua extensão retificada, onde um trecho do rio com 17,8 km passou a ter 7,2 km, no centro da cidade, área intensamente urbanizada, foi canalizado para dar espaço as construções. Teve suas margens devastadas e ocupadas irregularmente e lançamentos de esgoto são encontrados com freqüência por todo seu comprimento.
É o rio mais poluído da cidade. 
Já existem projetos para a revitalização do rio. Foi foi criado recentemente o Parque Nascente do Rio Belém, com mais de quarenta mil metros quadrados para preservar a natureza. Existem várias campanhas de despoluição do rio e demonstrações de carinho da comunidade como o "abraço ao rio belém" realizado anualmente cuja foto encerra este texto.

ORAÇÃO DA VELHICE




Ó Senhor, tu sabes melhor do que eu que estou envelhecendo a cada dia.
Sendo assim, livra-me da tolice de achar que devo dizer algo, em toda e qualquer ocasião.

Livra-me, também, Senhor, deste desejo enorme que tenho
de querer pôr em ordem a vida dos outros.

Ensina-me a pensar nos outros e ajudá-los, sem jamais me impor sobre eles, mesmo considerando com modéstia a sabedoria que acumulei e que penso ser uma lástima não passar adiante.


Tu sabes, Senhor, que desejo preservar alguns amigos e uma boa relação com os filhos e que só se preservam os amigos e os filhos... quando não há intromissão na vida deles.

Livra-me, também, Senhor, da tolice de querer contar tudo com detalhes e minúcias
e dá-me asas para voar diretamente ao ponto que interessa.

Não me permita falar mal de alguém.
Ensina-me a fazer silêncio sobre minhas dores e doenças..
Elas estão aumentando e, com isso,  
a vontade de descrevê-las vai crescendo a cada ano que passa.


Não ouso pedir o dom de ouvir com alegria
a descrição das doenças alheias; seria pedir muito.
Mas, ensina-me, Senhor, a suportar ouvi-las com paciência.

Ensina-me a maravilhosa sabedoria de saber que posso estar errado em algumas ocasiões.
Já descobri que pessoas que acertam sempre são maçadoras e desagradáveis.

Mas, sobretudo, Senhor, nesta prece de envelhecimento,
peço: mantenha-me o mais amável possível.

Livrai-me de ser santo(a).
É difícil conviver com santos!

Mas um(a) velho(a) rabugento(a), Senhor,
é obra prima do diabo!
Me poupe!!!

Amém!
(Desconheço o autor. Se alguém souber de quem é, favor me comunicar)

UM BRINDE - poesia

Este poema foi classificado no Concurso Nacional de Poesias Lindolfo Bell e é uma homenagem a todos os poetas.

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